Viva a Democracia!
Era o ano de 1967. Magali lembrou bem dos rasgos de militância política. Era um dia especial na política do nosso país, com manifestações por todos os lados. A ditadura era ferrenha, castradora, terrível. O AI5 aí estava, levando nossas cabeças pensantes, assim como levou, cassado, o pai dessa nossa amiga, motivo pelo qual, com toda razão, estava inconformada, revoltada.
Não sabíamos bem o que todo aquele movimento significava, mas a certeza de que deviamos apoiá-lo, isso sim, tinhamos convicção. Magali já carregava no seu DNA essa consciência política por questões familiares e sempre que havia algum espaço lá estava ela a extrapolar sua rebeldia, a fazer discursos em cima das cadeiras da sala de aula, o que sempre lhe rendia algumas suspensões.
Erika, naquela época remota, sabia que era justo lutar pelos direitos da maioria oprimida, embora para ela tudo isso fosse também uma grande farra.
Foi assim, que reunimos um grupinho da nossa turma e munidas de toda a nossa coragem adolescente, partimos para a Praça da Sé, pois soubemos que ali estavam reunidos estudantes, como nós, a reivindicar direitos.
Ao chegarmos nas imediações da Praça Municipal e a Praça Castro Alves, constatamos que " o pau tava comendo solto"... Bombas de efeito moral, o maior tumulto. O barulho da manifestação nos deixou apavoradas, embora não confessássemos umas às outras o nosso medo.
Erika então, segurou forte no braço de Magali tentando detê-la e esta lhe perguntou se estava com medo, ao que ela prontamente respondeu:
" Estou sim, mas não é com medo por mim não. Tô com medo por você".
Naquele momento, sentimos que ela havia verbalizado o medo de todas nós e de imediato demos meia volta e voltamos para o colégio.
E assim, plantávamos uma semente...

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